domingo, 4 de março de 2012

Sonhos - Jorge Saes


Sonhos... 
Jorge Saes 
Torres-RS/2011
Enquanto há tempo, pergunto:
Como pode o homem negar sua estória?
Ou mesmo esconder, de si, reminiscências?
Como pode renegar, na alma, a dor que o anela?
Como fugir, no desalinho do tempo, as vestes que o mostrarão?
Como se esconder do ontem ou remediar o futuro?
Sempre um alguém  para observar desacertos.
Se O Todo oferece caminhos inevitáveis,
como evitar a luz que desnuda as sombras?
Nas calçadas noturnas, gatos brincaram de caçar ratos.
E o homem, trajado de mendigo, desejou frequentar festas nupciais.
Carente, quis beber, em cristais, gotas de ilusão.
Lágrimas secaram entre promessas e metáforas.
Mas hoje ainda é tempo de esquecer e de lembrar
de preparar o caminho para a última viagem.
Onde a régua, o compasso o esquadro, o prumo, o malho e o cinzel,
mediram orgulhosas pretensões na arte  de esculturar
ângulos desiguais.
Uma gota de mar tentou acariciar a areia.
Mas chegou no limite do último troféu.
O de haver fruído como o orvalho:
das tenras folhas para o ergástulo final, o chão.
Refúgio dos sonhos onde o tudo se transforma em nadas.
Sonhos (II)
O que fiz com meus sonhos?
Para onde os conduzi?
Abandonei-os?
Joguei-os em quarto escuro?
Já nem sei onde buscam moradas.
De vez em quando – aparecem.
Do fundo de algum baú – emergem.
Refletindo imagens - teimam vir à tona.
Sob a luz da realidade - espectros.
Morrem todos os dias.
Jorge Saes/ Torres-RS
Fonte da imagem:

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Patricia Piccinini

No trabalho da artista australiana, Patricia Piccinini (1965), seres híbridos em esculturas hiperrealistas questionam a vida como a conhecemos e as manipulações da engenharia genética.

Biografia
Catálogo heterose
por Drome (2002)
b. 1965, Freetown, Serra Leoa
vidas Melbourne, Austrália
Patricia Piccinini chegou à Austrália em 1972 com sua família. Ela estudou inicialmente a história econômica antes de se matricular na escola de arte em Melbourne. Desde 1991, seu trabalho tem sido exibido em todo o mundo, incluindo a Bienal de Berlim em 2001 e Songs of the Earth, em Kassell, em 2000.

Piccinini trabalha com uma variedade de meios, incluindo pintura, escultura, vídeo, som, instalação e impressões digitais. Ela gosta de explorar o que chama de "As distinções muitas vezes ilusórias entre o artificial e o natural". Os conceitos que sustentam a ciência moderna, como a engenharia genética e outras formas de biotecnologia, parecem fasciná-la.

O Projeto Genoma Mutant (TMGP) (1994), software de computador usado para desenvolver FIXO (não evoluídos Lifeform com Propriedades Mutantes), "criatura" um híbrido virtual. A artista disse que "LUMP é carne, parte humana, biotecnologia, cultura popular e marketing; unlovable para alguns, mas a 'menina dos olhos de sua mãe'. Nódulo é um "bebê" nasceu de um acoplamento perverso da publicidade televisiva e princípios básicos de engenharia. Esta criança, brilhante plástico, é gerada por computador, por meio de trabalho fotográfico, Psychotourism (1996), no qual é protegido e protegida pelo seu humano, embora digital aumentada, sua 'mãe'. Outras criaturas virtuais aparecem em Estudos Sociais (2000) e Plasticology, a instalação multi-tela apresentada em 1999 Melbourne International Biennial (1999) e 1997 Sydney Perspecta. Vagamente embrionárias, Piccinini, artista de formas inventada, apresenta criaturas simultaneamente atrativas e repulsivas.

Um acoplamento ambivalente e, talvez, estranho pode ser visto de novo no carro Nuggets: Eles são bons para você (1998) e Babies Truck (1999). Estes últimos são bonitos, comprimido e máquinas rodoviárias simplificados em brilhante rosa pastel e fibra de vidro azul bebê. A partir de uma desova semelhante, vem de carro Nuggets. Para Piccinini essas formas são algo de um retorno nostálgico. Eles não se referem apenas aos caprichos de processos de produção industrial em massa, mas também para os áureos tempos da adolescência, onde o carro e as peças do carro simbolizaram um léxico potente dos desejos. Nas versões GL 2001, ela decorou esses fragmentos estranhos com uma chama e detalhes do crânio.

Piccinini goza das ficções e mutabilidade das idéias de perfeição. Os contrastes e as relações que existem entre os mundos naturais, orgânicos e construído, sugerindo-lhe o potencial do casamento de fisiologia humana e do desenvolvimento tecnológico. 
  A biologia como produtora de modelos e metáforas.

Biography
Heterosis Catalogue
by Drome (2002)
b. 1965, Freetown, Sierra Leone
lives Melbourne, Australia
Patricia Piccinini arrived in Australia in 1972 with her family. She initially studied economic history before enrolling at art school in Melbourne. Since 1991 her work has been exhibited around the world, including the Berlin Biennale 2001 and in Songs of the Earth in Kassell, in 2000.

Piccinini works in a variety of media, including painting, sculpture, video, sound, installation and digital prints. She enjoys exploring what she calls ‘the often specious distinctions between the artificial and the natural’. The concepts that underpin modern science, such as genetic engineering and other forms of biotechnology, appear to fascinate her.

The Mutant Genome Project (TMGP) (1994), used computer software to develop LUMP (Lifeform with Unevolved Mutant Properties), a virtual hybrid ‘creature’. The artist has said that ‘LUMP is part human flesh, biotechnology, popular culture and marketing; unlovable to some, but the apple of its mother’s eye’. LUMP is a ‘baby’ born from a perverse coupling of television advertising and basic engineering principles. This shiny, plastic infant again features in the computer generated photographic work, Psychotourism (1996), in which it is sheltered and protected by its human, although digitally enhanced, ‘mother’. Other virtual creatures appear in Social Studies (2000) and Plasticology, the multi-screen installation featured in the 1999 Melbourne International Biennial (1999) and Sydney’s 1997 Perspecta. Piccinini’s vaguely embryonic invented forms are simultaneously attractive and repellent.

An ambivalent and perhaps weird coupling can be seen again in Car Nuggets: They’re good for you (1998) and Truck Babies (1999). The latter are cute, compressed and streamlined road machines in shiny pastel pink and baby blue fibreglass. From a similar spawning comes Car Nuggets. For Piccinini these forms are something of a nostalgic return. They refer not only to the vagaries of industrial mass production processes but also to the heady days of adolescence where the car and car parts symbolised a potent lexicon of desires. In the 2001 GL versions she has decorated these strange fragments with flame and skull details.

Piccinini enjoys the fictions and mutability of the ideas of perfection. The contrasts and relationships that exist between the natural, organic and constructed worlds suggest to her the potential of the marriage of human physiology and technological development. 

Fonte da primeira imagem e do texto: http://www.patriciapiccinini.net/
Fonte da segunda imagem:http://veronicafukuda.blogspot.com/2011/06/patricia-piccinini.html
Vejam, no link abaixo, fotos de suas esculturas, no mínimo, desconsertantes!!!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Perguntaram a John Lennon

"Perguntaram a John Lennon:
- Por que você não pode ficar sozinho, sem a Yoko?
E ele respondeu:
- Eu posso, mas não quero. Não existe razão no mundo porque eu devesse ficar sem ela. Não existe nada mais importante do que o nosso relacionamento, nada. E nós curtimos estar juntos o tempo todo. Nós dois poderíamos sobreviver separados, mas pra quê? Eu não vou sacrificar o amor, o verdadeiro amor, por nenhuma piranha, nenhum amigo e nenhum negócio, porque no fim você acaba ficando sozinho à noite. Nenhum de nós quer isto, e não adianta encher a cama de transa, isso não funciona. Eu não quero ser um libertino. É como eu digo na música, eu já passei por tudo isso, e nada funciona melhor do que ter alguém que você ame te abraçando."

Site dessa imagem: lastfm.com.br

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: O CORAÇÃO É UM CANTEIRO DE FLORES...

DIÁRIO DE BORDO: O CORAÇÃO É UM CANTEIRO
 DE FLORES...
Jorge Bichuetti do blog Utopia Ativa
Madrugada... de verão. Calor e vida. O orvalho no meu quintal impregnou o ar com cheiros de rosas e folhas, um mato no chão que acalenta... relva salpicada de gotas que refletem o céu... Há estrelas no caminho...
Luinha foi descansar... Anda encantadas com os passarinhos que cantam e voam... se agasalham nos álamos e vivem alegres... Antes tinha ciúmes; agora,não...
Não sei como a Luinha consegue entender tudo que se passa... seus olhinhos cuidam de mim... me acompanham... Agora, é 04:48... Ela veio me acompanhou no quintal... me viu sentir alegria, com os passarinhos se despertando com a minha presença... Caminhar é voar quando, no caminho, nos conectamos com as flores e com as árvores, com o vento e o orvalho, com o luar... Voar para encontrar no caminho a a aurora... Converso longamente com Luinha e lhe tranquilizo, dizendo que logo nossa rotina se dará no alvorecer da vida com sonhos e poesias, lutas voos na imensidão azul... Estes dias de repouso e medicamentos, a deixou cheia de cuidados... Me vigia... Se brincamos, ela alegre corre e piedosa, logo, deita-se... respeitando minhas horas de repouso... Ali, nos meus pés... ou aconchegada ao meu coração...
O amor na sua expressão de ternura e compaixão, partilha e solidariedade... é a magia da vida que germina novas floradas, afugentando do caminho os espinheirais das dores e das inquietações... Por isso, cura...
Ouvindo longe as badaladas dos sinos... penso na vida e na minha alegria de viver...
Viver é tecer no caminho um rede de amores e amizades onde conectados os corações se transformam num canteiro de flores... Floradas da ternura; vidas partilhadas nos voos do amor...
O mundo permanece cinzento e hostil... Guerras, corrupção... Exclusão social, desamor... O individualismo neoliberal agravou as perversidades da subjetividade capitística... Banalizou os encontros; forjou vínculos líquidos... Incrementou o consumismo... e gerou uma vida de depressão, pãnico e toxicodependência... muita solidão...
No retorno às atividades docentes da Psicologia da Uniube, vi que há outros mundos... Amigos na alegria do sorriso que abraça... Amigos no idealismo do caminho que desbrava na escuridão novos horizontes azuis...
Como é valioso e revolucionário a força do amor que tecida nos vínculos da amizade institui a ética da solidariedade e da compaixão...
Miro Luinha: ela sonha... Lhe ensino a fugir dos pesadelos da apatia, da acomodação e do imobilismo que nos é sugerido, diuturnamente, por modo de existir que nos aparta do outro...
O outro é um alheio... na narcisismo parasitário do capitalismo globalizado que nos aliena da vida de encontros... Substui o encontro pela informação; cristaliza ilusões e nos sedimenta de pés alijados da caminhada de de pedras e flores, espinhos e sonhos... caminhada da humanidade na esperança ativa de produzir na luta um novo alvorecer...
O mundo molar é rígido, não tem molas... não tem bailado da flexibilidade que é compreensão e tolerância, auxílio mútuo e metamorfoses singularizantes...
O sol nascerá... Mesmo com minhas dores (que passarão) hei de buscar a molecularidade terna e singela dos sambas do morro... Cantarei, dançarei...
Todos temos nossas dificuldades e limitações e crescemos, nos alisamos para os devires inovadores na luta... Mas, como já dizia Nietzsche, não se vence o "diabo" com palavras... o vencemos com riso, dança e música... a arte martelando aberturas no horizonte, parindo o porvir... a coragem de ser alegre por teimosia semeando no céu nublado um arco-íris e uma revoada de passarinhos...
 
Abaixo uma entrevista concedida pelo meu querido amigo, Jorge Bichuetti, ao Programa DNA, da BAND TV. "Entrevista com o psicanalista Jorge Bichuetti, exibida em 19 de agosto de 2010, na Band Triângulo. O DNA é um programa de entrevistas conduzido pelo jornalista André Azevedo da Fonseca. O objetivo é despertar um diálogo sobre as reflexões mais íntimas, as impressões pessoais e as diversas dimensões da sensibilidade dos entrevistados".




#DNA 41 - Entrevista com o psicanalista Jorge Bichuetti from Andre Azevedo da Fonseca on Vimeo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Casal apaixonado por gatos faz da própria casa playground felino

Clique no link abaixo para ler a reportagem:

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Amauri Ferreira: Respiro - videoaforismos (completo)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Édipo e Anti-Édipo

ideias que se desprendem do lógico porque o lógico não interessa agora. o surreal preenche o devir. sagrado ou profano, eis aí uma das encruzilhadas onde édipo se encontra e se digladia. as leis divinas parecem estar no mesmo nível das leis humanas. a questão do poder, ou melhor, do poder-saber, atravessam-lhe fechando ciclos. édipo tirano. o poder corrompe, o poder esquizofreniza. édipo caminha entre o mundo das sombras e o da realidade. esta, quando ele consegue contemplá-la, cega-lhe como punição por ter tido olhos e não ter conseguido enxergá-la. posso querer descobrir a verdade, como Jocasta, já tendo o prenúncio da verdade em suas mãos, e me manter passiva, sem desejar buscá-la, para que não se altere aquilo que está estável. édipo, antes de mais nada, é louco pelo poder, poder que não pretende ceder a creonte ou a qualquer outro, mas, ao tomar o conhecimento da verdade, banha-se no rio do saber. e da relação poder-saber prefere a escuridão da culpa. do nada ao ser, do ser ao nada. fecha-se o seu ciclo metafísico, oculta-se o fazer histórico-social, com a morte de jocasta.
o anti-édipo surge como forma de pôr fim às amarras que seguram, aprisionam, o desejo revolucionário, como maneira de nos apresentar ideias que nos instiguem à vivência de “uma vida não-fascista”, alegre, plena de devires, cheia de potências e intensidades, sem clichês... nosso inconsciente são usinas que produzem subjetividades, são máquinas desejantes, ao contrário do que a psicanálise e a psiquiatria estabelecem por meio da teoria edipiana, ao contrário do que o capitalismo, o estado, o psiquiatra, o patrão, todos juntos verticalmente imprimem em nossos corpos. ... não devemos aceitar esses determinismos historicamente consagrados e legitimados pela sua repetição que só nos levam à subserviência e à castração das nossas potências criativas...
tânia marques 17/12/2011
meus textos são escritos com as letras minúsculas para não passarem ao leitor a ideia de hierarquia, de submissão, às letras maiúsculas, aparentemente mais “poderosas”. linearidade sempre, inclusive e principalmente nas práticas cotidianas menores, tipo a da escrita que tenta burlar o sistema oficial. para a pontuação também vale o mesmo, se bem que é bastante difícil para uma professora de português (eu), que já tem a normas gramaticais automatizadas, conseguir inicialmente deixar-se levar pela insubordinação a elas.

domingo, 25 de setembro de 2011

Nuvem, nuvenzinha


Manhã fria. O Grande Astro nasce.
Vai demorar para esquentar,
Mas já começo a sentir,
Pela Luz do Sol na face,
Que o dia ficará quente.
Talvez não tão quente,
E sim aquele clima gostoso,
Com o vento levando o
Pensamento para longe,
No horizonte.

Como o dia está belo!

E que nuvem é aquela,
Solitária,
Passando e se transformando
Neste céu
Azul?
É uma nuvem, oras!
Só que não a vejo mais;
Só sei que ela ainda navega
No céu
Azul,
Solitária...

Solitária?
Não. Creio que não.
Os pássaros cantam para ela
E o Vento que a leva
Faz as folhas das árvores
(En)Cantarem.
Ou chorar.

Talvez estão dizendo adeus
À nuvenzinha
Solitária.
"Vá, nuvenzinha, ache outros
Lugares, outros mundos,
Voe, cresça.
Viva a arte de Viver!"

Sou uma nuvem, sentindo
Toda esta intensidade
Desta manhã prazerosa e...
Solitária?

Jamais!

Estou acompanhado da
Natureza
e do
Pensamento.


Gustavo Guimarães Ferri
Estudante de Psicologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Fonte da imagem:
http://www.adibes.com.br/noticia_ver.asp?id=426

domingo, 28 de agosto de 2011

Manoel de Barros: o meu poeta

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

Manoel de Barros (in: O livro das Ignorãças)
Fonte da imagem: paginasdeensaio.blogspot.com

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre meu rosto vem dormir a noite.

Manoel de Barros (in: O livro das Ignorãças)
Fonte da imagem: Google images.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Caixa - The box - Gabriel Gomes

A CAIXÄ (the box) from Gabriel Gomes on Vimeo.

domingo, 7 de agosto de 2011

Poema de "Alexandre Lacerda Alves"

O que disfarça a nulidade do ser;
O que excita o pensamento humano;
O que exercita a dignidade do viver;
O que acalma o estouro do rebanho;
O que orienta liberdade descrita...
... nas asas dos pássaros voando?


O que pode poderosamente transformar,
Em lágrimas agora convertidas;
No que outrora fora impiedosa;
A morte vinda de mãos pervertidas?


O que pode qual bruma bondosa,
Visitar-nos aos sonhos – delírios,
Presenteando-nos com mão perfumosa,
Em belas ramagens, seus mais brancos lírios?


O que afinal reunir tanto poder,
sobre os campos, o fogo, rios e ares,
sobre fugidio encanto e seu dizer,
sobre a calmaria dos mares,
ou ainda o que não podemos saber?


O que é tanto amor e piedade,
O que é perdão sem levante,
O que é a brandura na agonia,
O que é força não estanque,
O que é a benção deste dia?


O que reúne o tudo e o nada,
O que atrai o fogo da espada,
Tanto quanto a carícia do perdão,
No deserto de tantos temores;
Dos que não se dão aos amores,
Cujos braços nos agasalharão,
E pacientemente esperam, sem retaliação,
Que o filho reconheça do pai a bondade,
Mesmo quando chora, pela maldade;
De uns poucos que lhe fogem;
Preferindo o encontro protelar,
Com a luz, sua força, sua paz,
Não entendendo quão fugaz
Tudo isto se torna,
Quando DEUS nos sorri,
E o resto ao nada retorna,
Porque tudo passa a ser amar.


Alexandre Lacerda Alves 
(Texto e imagem cedidos via página pessoal do Facebook)

sábado, 6 de agosto de 2011

Júbilo, Memória, Noviciado - Hilda Hilst

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.


II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.


III

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?


VI

Três luas, Dionísio, não te vejo.
Três luas percorro a Casa, a minha,
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães

E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

Quando tu, Dionísio, não estás.


VIII

Se Clódia desprezou Catulo
E teve Rufus, Quintius, Gelius
Inacius e Ravidus

Tu podes muito bem, Dionísio,
Ter mais cinco mulheres
E desprezar Ariana
Que é centelha e âncora

E refrescar tuas noites
Com teus amores breves.
Ariana e Catulo, luxuriantes

Pretendem eternidade, e a coisa breve
A alma dos poetas não inflama.
Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta

Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra.


IX

“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”



Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

Pensando

Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.


X

Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

Fonte: http://www.hildahilst.com.br/obras.php?categoria=4&id=66

sábado, 23 de julho de 2011

Minha amiga LUIZA CASPARY: sucesso e carisma

Taí o 1º vídeo da série "At home with friends", e pra começar bem, uma música inédita da compositora Israelense e amiga Lilac Harel .

Então aí vai a ficha técnica de "Falling"

Luiza Caspary - voz solo
Composição - Lilac Harel
Arranjo da 4'33 formada por:
Andrio Maquenzi - Teclados, E-Bow/Guitarra e Backing Vocals.
Brenno Di Napoli - Baixo
Valmor Pedretti Jr. - Bateria, Percussão e Programações
Thiago Grün - Mixagem e Masterização

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Mate na Praça, em Bagé/RS


Em 1973, Jorge Saes e um grupo de amigos começaram o (um) Mate na Praça, em Bagé.                                                                                                                            Jorge Saes




Sem muito esforço recordo do ano de 1973, data em que nasceu o Mate na Praça. A relação com José Carlos Teixeira Giorgis tem início quando, aluno do Colégio Estadual Dr. Carlos Kluwe, tive a honra de frequentar suas aulas. O Juca, como gosta de ser reconhecido, lecionava Biologia. Nas mãos, uma caixa de giz e um apagador.   Na lousa verde, deslizando o branco giz, os esquemas trazidos na memória surgiam. Discorrendo sobre fenótipos e genótipos, demonstrando, através do “Quadro de Punnett”, modelos de cruzamentos e as Leis de Mendel, ficávamos em silente aprendizado. Já o conhecia por sua participação na política, antes mesmo daqueles terríveis momentos de exceção que viveu o povo brasileiro. Aprendi a admirá-lo por sua atuação no mundo jurídico, mas o contestava como presidente do arquirrival inimigo vermelho e branco. Como craque de futebol, ao lado de Bochão e Quininho, possuía drible fácil dentro da grande área para concluir o gol, nunca de bico. Para mim, na época, um ser que deveríamos admirar a distância. Mais impossível tornava-se uma aproximação quando ele desfilava em seu flamejante Karmann Ghia verde pelas ruas de nossa Bagé. A vida teima, porém, fazer realizar o que pensamos impossível. Por voltas de 1966, fui trabalhar no Ofício dos Registros Especiais – Títulos, Documentos e Protestos de Títulos, como office boy, para ser, em futuro imediato, um Escrevente Autorizado. Um dia, nesta atividade, fui procurado pelo insigne professor, que também advogava, necessitando realizar uma notificação extrajudicial pelas bandas do Passo das Tropas. Haveria uma dificuldade para a execução do procedimento. Além do difícil acesso, difícil também seria encontrar o destinatário do documento, em seu endereço, no horário normal de funcionamento do cartório. Esclarecendo esta dificuldade, dei conhecimento ao titular do Ofício, nosso saudoso Tito Afonso Fabrício Barbosa, que logo anuiu à realização da visita em excepcionais condições. Dito e feito, marcada a data e o horário, foi realizado o ato sem danos nem perdas para as partes, sem entraves, como interessa a celeridade das coisas públicas. Estabeleceu-se, daí, um clima de confiança entre serventuário e advogado, também professor. Desde esta data, além do laço profissional, aos poucos, fomos cultivando um clima de sincera e cordial amizade, coisa pouco normal neste mundo de tão marcadas diferenças. Os encontros no pátio do Colégio Estadual, nos intervalos das aulas, ou recreio, foram inevitáveis. Somavam presenças naqueles rápidos momentos, João Maia dos Santos, Antoninho Ferreira, Kiwal Parera, Gesner Carvalho, Boaventura Miele da Rosa, o ex-colega Carlai, um craque de bola, dentre outros alunos e professores. Aos sábados pela manhã, Juca dirigia-se à Livraria Previtali, na Avenida Sete de Setembro, sem dúvidas, para colher os últimos lançamentos de livros que se uniriam à sua biblioteca jurídica ou aos clássicos herdados da origem paterna. Desses encontros, ficaram combinados reencontros para as manhãs de domingo. Objetivo? Tomarmos mate. Nas primeiras saídas, aos domingos, por volta da dez da manhã, Juca, já com seu Chevrolet Opala, cor de chocolate e capota de vinil preto, dirigia-se à Avenida Sete de Setembro, número 180. Com o chimarrão pronto, escolhíamos um lugar ao sol, ou à sombra, conforme a temperatura e as condições climáticas, em algum banco de praça. Juca, como sempre, muito assediado por amigos e populares. Alguns se tornaram seguidores. Passamos a receber visitas por saberem horário e local dos encontros domingueiros e em dias feriados. Eis que, oriundo de Porto Alegre, depois Dom Pedrito, ainda acadêmico de direito, Jorge Chagas associa-se ao grupo. Depois de alguns voejos, ficou resolvido que a Praça da Matriz  seria o palco central das conversas aleatórias ao sabor do doce amargo que aquece a vida. Em poucas palavras, assim foi que aconteceu a gestação e o nascimento do primeiro grupo. José Walter Maciel Lopes, ainda acadêmico de direito, agrega-se para se tornar mantenedor e incentivador, um pouco mais tarde. Vem, a seguir, Valdir Alves Ramos, Ito Carvalho, atual coordenador dos trabalhos, Edmundo Castilhos Rodrigues, Claudiram Nunes, Fernando Giorgis. Às vezes, faziam presenças o Dr. George Teixeira Giorgis, Décio Lahorgue, os irmãos Ferraz e tantos outros.  Notabilizou-se o Mate na Praça por ser um ponto de encontros e reencontros de amigos e parentes que chegam à Bagé. Recebemos muitas visitas. Por lá estivemos desde o início até l995, aproximadamente, com os aprestos - cuia, bomba, erva-mate e garrafas térmicas. José Walter também possuía sua estrutura. Mantemos guardada a primeira cuia com bocal de prata, testemunha desta narrativa, que, passada de mão em mão, foi transferindo o calor e a energia para solidificar uma instituição, “O Mate na Praça”.
Fonte: 
Texto escrito por Jorge Saes e enviado para o meu e-mail, juntamente com as fotos acima.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

O encontro mágico do palhaço com a música

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A poesia de Manoel de Barros


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros


Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas.
E me encantei.

Manoel de Barros





Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro,
envergá-las pro chão, corrompê-las, -
até que padeçam de mim e me sujem de branco.

Manoel de Barros







Poesia é voar fora da asa.

Manoel de Barros

Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas.
Consegui não descobrir.

Manoel de Barros


...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

Manoel de Barros

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Manoel de Barros


Sou hoje um caçador de achadouros da infância.
Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.

Manoel de Barros




 

O mundo não foi feito em alfabeto.
Senão que primeiro
em água e luz.
Depois árvore.

Manoel de Barros












Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir
os ventos pelos caminhos, e ver o sol
Dourando os cabelos negros
e os olhos de minha amada.

Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
Em verdade ele é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
Que sem ela a casa também eu não queria,
e voltava pra pensão.

Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos
E a dona é sempre uma senhora
do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre,
e daí podeis muito bem deduzir
Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.

Nas minhas solidões de amor e
nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
Como amarga a vida de um
homem o carinho das prostitutas!

Vós sabeis como tudo amarga
naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.

Permiti que eu sonhe com
a minha amada também, porque:
- De que me vale ter casa sem ter
mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame
andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o
como se vê nos cinemas...

O ideal seria uma que amasse fazer comparações
de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno,
gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas...

O ideal seria uma menina boba:
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono,
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome -
senão que um sorriso triste
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto
das crianças que não têm rumo...

Manoel de Barros


Fonte das imagens:
http://www.google.com./
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