segunda-feira, 4 de julho de 2016

Minha análise do filme Ponto Zero, de José Pedro Goulart

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Maravilhoso, um filme de grandes e intensas profundidades. Gratidão por ter participado de uma cena nele. Uma metáfora poética do amadurecimento. O mergulho na piscina, atando as duas pontas do filme, foi magnífico. O adulto que se revela, salvando a criança que ainda existe dentro dele e, ao mesmo tempo, mostrando o distanciamento entre maturidade e infância, onde a primeira decorre em função desta última. Um filme introspectivo, reflexivo, carregado em símbolos/significados (semiótica) e lirismo psicológico.
De temática que não precisa de explicações, o silêncio fala (sempre) no filme. Os gritos dos personagens são transbordamentos, libertação.
O filme é universal nas sensações que desperta no espectador, porém ele se torna um desafio para a compreensão daqueles que vivem na superfície da vida, daqueles que se deixam levar apenas pela correnteza aparente da vida.
Quem vive na linearidade e a favor dos ventos, pode sentir-se desafiado pelo filme a enxergar o que subjaz à vida, especificamente, a compreender o turbilhão que a adolescência representa em busca de autonomia.
Trilha sonora envolvente demais, comunica tanto quanto as imagens. Às vezes, até mais do que as cenas.
Eu me identifiquei muito com o filme, porque eu não curto a obviedade. O óbvio é para os fracos, e o diretor, ao expor seus argumentos cinematográficos, foi forte o bastante para causar um grande barulho em nosso cérebro.
As metáforas que aparecem quanto à sexualidade foram bem exploradas, porque, mesmo envolvendo um contexto de prostituição, este universo aparece submerso em lirismo poético, o que significa, subliminarmente, que o possível "amor" entre corpos não fica descartado num futuro momento, mesmo numa maquinação física de adolescente. No caso, o impulso sexual é ímpeto de vida.
Ímpeto de vida para a sobrevivência do personagem, que estava submerso numa realidade cruel, onde a mãe egoisticamente transfere para ele um papel insuportável diante de sua fragilidade. O que ocorre à sua volta é atormentador, digamos que do ponto de vista psicanalítico. 
Vejo também a questão da culpa bem forte no filme, o crescimento do personagem se dá a duras penas. Não é fácil o sopro de liberdade sem uma dose de culpa. Ele realmente queria ser "invisível" para poder suportar tal ambiente familiar hostil. Criou sua linha de fuga. Achei o máximo as cenas do protagonista andando de bicicleta...(onde eu apareço no final delas tmb). O sangue embaixo da camionete que o personagem Ênio limpa, na minha interpretação, revela a culpa que ainda tomava conta do delírio/pesadelo que vivenciou naquela noite. 
Parabéns pelo todo, pela mensagem passada, pela sacada em falar da adolescência como uma borboleta que rompe o casulo em busca da sua adultez. 
Se alguém ficou no ar e não conseguiu enxergar as pistas, sinto muito, deve ser uma pessoa que só conhece a linearidade óbvia da vida e que não amadureceu o suficiente para analisar as fendas, as entranhas, recheadas de experiências e de crescimento. 
Sensacional este filme, mostra um bummm para o amadurecimento porque coloca em xeque um turbilhão de desafios e contradições, ao mesmo tempo em que ele, o protagonista, tem que lutar para sobreviver a isso tudo. Mas nada aconteceria dessa forma, se não fosse a presença desse ator espetacular chamado Sandro Aliprandini.

                                                    Foto de Amanda Copstein



 Análise de Tânia Marques

P.S. 
Ainda sobre Ponto Zero, depois que o vi novamente no Instituto Ling, cheguei às seguintes inferências "simbólicas": aquela jogada estúpida do filho para dentro da piscina representa um verdadeiro "TE VIRA", ou ainda, pensei bem naquela coisa de concepção...um esperma jogado no útero materno. Pode ser piração, mas enxerguei isso. Outro detalhe, diz respeito ao leite. Enfaticamente o personagem Ênio chega à sua casa e toma leite, que diz respeito à proteção e ao vínculo materno. Óbvio que ele tenta romper com isso durante o filme inteiro.
A sofrência da mãe é outro ponto a se destacar, uma mulher dominada pelo machismo, submissa às aparências de um casamento que tinha de mostrar uma fachada de "família normal" e que a deixou cheia de traumas, lacunas e com a autoestima praticamente zerada.
Finalmente, associei o título "Ponto Zero" ao "ponto morto" da camioneta, pois é, a partir do momento em que Ênio empurra a camionete, que as grandes mudanças passam a ocorrer em sua vida.
As interpretações nunca se esgotam, mostrando o valor arte de Ponto Zero.
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