domingo, 28 de agosto de 2011

Manoel de Barros: o meu poeta

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

Manoel de Barros (in: O livro das Ignorãças)
Fonte da imagem: paginasdeensaio.blogspot.com

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre meu rosto vem dormir a noite.

Manoel de Barros (in: O livro das Ignorãças)
Fonte da imagem: Google images.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Caixa - The box - Gabriel Gomes

A CAIXÄ (the box) from Gabriel Gomes on Vimeo.

domingo, 7 de agosto de 2011

Poema de "Alexandre Lacerda Alves"

O que disfarça a nulidade do ser;
O que excita o pensamento humano;
O que exercita a dignidade do viver;
O que acalma o estouro do rebanho;
O que orienta liberdade descrita...
... nas asas dos pássaros voando?


O que pode poderosamente transformar,
Em lágrimas agora convertidas;
No que outrora fora impiedosa;
A morte vinda de mãos pervertidas?


O que pode qual bruma bondosa,
Visitar-nos aos sonhos – delírios,
Presenteando-nos com mão perfumosa,
Em belas ramagens, seus mais brancos lírios?


O que afinal reunir tanto poder,
sobre os campos, o fogo, rios e ares,
sobre fugidio encanto e seu dizer,
sobre a calmaria dos mares,
ou ainda o que não podemos saber?


O que é tanto amor e piedade,
O que é perdão sem levante,
O que é a brandura na agonia,
O que é força não estanque,
O que é a benção deste dia?


O que reúne o tudo e o nada,
O que atrai o fogo da espada,
Tanto quanto a carícia do perdão,
No deserto de tantos temores;
Dos que não se dão aos amores,
Cujos braços nos agasalharão,
E pacientemente esperam, sem retaliação,
Que o filho reconheça do pai a bondade,
Mesmo quando chora, pela maldade;
De uns poucos que lhe fogem;
Preferindo o encontro protelar,
Com a luz, sua força, sua paz,
Não entendendo quão fugaz
Tudo isto se torna,
Quando DEUS nos sorri,
E o resto ao nada retorna,
Porque tudo passa a ser amar.


Alexandre Lacerda Alves 
(Texto e imagem cedidos via página pessoal do Facebook)

sábado, 6 de agosto de 2011

Júbilo, Memória, Noviciado - Hilda Hilst

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.


II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.


III

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?


VI

Três luas, Dionísio, não te vejo.
Três luas percorro a Casa, a minha,
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães

E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

Quando tu, Dionísio, não estás.


VIII

Se Clódia desprezou Catulo
E teve Rufus, Quintius, Gelius
Inacius e Ravidus

Tu podes muito bem, Dionísio,
Ter mais cinco mulheres
E desprezar Ariana
Que é centelha e âncora

E refrescar tuas noites
Com teus amores breves.
Ariana e Catulo, luxuriantes

Pretendem eternidade, e a coisa breve
A alma dos poetas não inflama.
Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta

Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra.


IX

“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”



Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

Pensando

Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.


X

Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

Fonte: http://www.hildahilst.com.br/obras.php?categoria=4&id=66
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